Usina de Biodiesel: um dos maiores "elefantes brancos" da história de Crateús

Envolta em problemas de ordem ambientais, financeiros e com dificuldades de aquisição de oleaginosas — mamona, dendê, óleo de soja — e com atividades paralisadas há seis meses, a unidade de produção de biodiesel, da Brasil Ecodiesel, em Crateús, fechou às portas no mês de julho do ano de 2009. A informação foi confirmada na época pelo então deputado federal Hermínio Resende (PSL), na Assembleia Legislativa do Estado, e a noite a informação foi confirmada pelo prefeito de Crateús na época, Carlos Felipe.

Lula sendo recebido por populares no aeroporto de Crateús. Foto; Ricardo Stuckert

Inaugurada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva em 31 de janeiro de 2007, a usina já iniciou as operações com dificuldades de aquisição de matéria-prima para produzir o combustível vegetal. Ancorada no programa federal de desenvolvimento do biodiesel, à base de mamona, a empresa foi inaugurada com apenas 20 mil toneladas de mamona em estoque, volume suficiente para produzir oito milhões de litros de biodiesel em um mês. A usina de Crateús foi inaugurada com capacidade instalada de produção de 10 milhões de litros de óleo por mês, ou 118 milhões de litros/ano.

Entretanto, os problemas começaram antes mesmo de abrir as portas, quando foi acusada por pequenos agricultores da região de não honrar compromissos relativos ao pagamento do preço mínimo do quilo da baga de mamona.

Chegou a empregar até 520 funcionários, sendo 90% de moradores de Crateús, mas nunca produziu mais que 10% de óleo verde, com mamona extraída da região.

Ambiental e financeiro

Segundo o então prefeito Carlos Felipe, a usina vinha sendo acusada também de poluir o rio Poti, considerado a quarta maior bacia hídrica do Ceará, responsável pelo abastecimento de água de vários municípios na região. “Sempre que a empresa funcionava, ocorriam problemas de poluição do rio”, relembrou o ex-prefeito.

Unidade em 2009. Foto: Hugo de Almeida/Panoramio

Além de problemas na produção e de ordem ambiental, Carlos Felipe conta que, apesar dos subsídios recebidos pelo governo, a unidade da Brasil Ecodiesel de Crateús vinha a tempos enfrentando problemas financeiros, agravados recentemente com a queda do valor das ações da empresa na Bolsa de Valores. Em novembro de 2006, a empresa havia lançado no mercado pouco mais de 31,5 milhões de ações, ao preço de R$ 12,00, por ação.

“O que quebrou a Brasil Ecodiesel aqui foi a queda da Bolsa de Valores. Quando iniciou as operações com bancos, as ações valiam R$ 12,00, e hoje, valem apenas R$ 0,80”, opinou o secretário municipal de governo de Crateús na época, Elder Leitão.

Já em artigo intitulado “Biodiesel no Ceará: uma perspectiva desenvolvimentista e divulgatória“, os escritores Jones Menezes e Aila Bernardo, aprofundam mais o caso e destacam que “ocorreram muitos problemas em decorrência de questões ambientais, como a suspensão temporária das atividades de esmagamento de oleaginosas da unidade, por meio de liminar pelo juízo da comarca de Crateús em julho de 2007, em ação cautelar de cunho ambiental, referente ao Rio Poti. Houve vazamento que acarretou na intensa poluição do Rio Poti e causou o aparecimento de
espuma e a morte de centenas de peixes, fato que preocupou a população que, articulada, buscou os órgãos públicos estaduais exigindo a imediata solução do problema”.

Passado oito anos após o fechamento da usina, se não fossem os problemas que resultaram no fechamento da usina, talvez hoje Crateús fosse uma cidade melhor desenvolvida e com maior número de empregados, e atenderia pelo menos em parte a reivindicações de grande parte dos munícipes, de fábrica que gere emprego e renda para a cidade, e talvez seria a única empresa de grande porte que empregaria considerável número de profissionais na região. A unidade chegou a empregar profissionais oriundos de várias partes do país, alguns até constituíram famílias na cidade.

A referência “Elefante Branco” citada no título desta matéria, é de fato um dos mais bem colocados adjetivos a esta grande obra, que teve direito a vinda de presidente da república para inaugurá-la, mas hoje não possui nenhum valor de empregabilidade.

Repórter: Nathan Loyola, com informações de Carlos Eugênio

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